Colaboradores, engagement e bem-estar em tempos de pandemia

Encontramo-nos a viver uma situação pessoal, profissional e social muito desafiante. A incerteza é a palavra do dia. O que me acontece se adoecer? Quais serão os números de hoje? Quando aparece o primeiro caso de COVID-19 na escola do meu filho? Vai tudo fechar? Como fica a economia? Vou ser despedido? Estas são algumas questões que assolam um vasto número de pessoas diariamente.

Este é, sem sombra de dúvida, um tempo de incertezas que nos provoca níveis de stress e ansiedade aos quais não estávamos habituados. O impacto do acréscimo de stress na saúde mental dos colaboradores é elevado. Estudos recentes indicam que o consumo de antidepressivos subiu – 14% segundo a ENSP. E este não será, certamente, o melhor caminho para uma verdadeira saúde mental.

Não é difícil perceber o efeito devastador que a atual situação tem na produtividade e na criatividade no local de trabalho, seja ele qual for: na empresa, em casa ou misto. Não se consegue criatividade sem estabilidade mental. Não se consegue produtividade vivendo permanentemente em níveis máximos de ansiedade e stress. E tudo isto traz avultados custos às empresas.

Nem todos lidamos com a incerteza da mesma forma e para algumas pessoas torna-se particularmente penoso. Adaptabilidade, flexibilidade e resiliência são competências necessárias a cada um de nós para ultrapassar situações difíceis mas, em muitos casos, estas competências têm de ser trabalhadas.

As organizações têm um papel social de apoio aos seus colaboradores, ajudando-os com ferramentas para a gestão da incerteza de cada dia. Os programas corporativos de bem-estar tradicionais não se adaptam à realidade de hoje. O apoio psicológico torna-se cada vez mais imprescindível na ajuda aos colaboradores, seja ele através de sessões individuais ou de workshops dedicados.

Uma oportunidade na formação e engagement para as organizações

Em muitos casos, os programas de engagment e bem-estar que até agora eram postos em prática nas empresas não resultam. Por exemplo, como substituir o tradicional pequeno almoço em equipa quando cada um está em sua casa?

Os programas devem tendencialmente evoluir de uma situação presencial para o on-line. A criatividade é necessária para a adoção de novas ações envolventes. O envolvimento dos colaboradores na definição destas ações é um fator de sucesso. Afinal são eles que sabem o que querem, o que necessitam e como.

É também a oportunidade das empresas apostarem no desenvolvimento dos seus colaboradores em áreas até aqui pouco trabalhadas. Falo de áreas como a Inteligência Emocional, Cognitive Bias, Esquemas Mentais, Stress, Flexibilidade e Adaptabilidade, entre outras. Workshops como Gestão do Tempo e Gestão de Equipas, por exemplo, poderão ser complementados com workshops que nos ajudam conhecermo-nos melhor e a desenvolver competências de resiliência. Não digo que não são importantes, porque o são, mas podem e devem ser completados com ferramentas que ajudam os colaboradores a alargar o seu leque de capacidades individuais.

Estas são áreas de desenvolvimento pessoal de interesse dos colaboradores e demonstram o quanto a organização se preocupa com eles. Ao apostarmos no “eu” de cada colaborador estamos a promover a sua fidelização e engagement com a organização. Todos nós sabemos que a motivação leva à criatividade. A criatividade ao empenho e o empenho à produtividade.

Qual é o papel dos RH nos dias de hoje?

Tenho participado em múltiplos Webinares e lido variados artigos sobre a alteração do papel dos RH nas empresas. Não posso estar mais de acordo com a necessidade da sua evolução. O seu papel tem de ser cada vez mais ativo e próximo dos colaboradores. A aferição do índice de bem-estar dos colaboradores deve ser contínua e deve dar lugar a ações de engagement e motivação.

A proximidade entre RH e colaboradores é necessária e, em muitos casos, a forma como atualmente é tratada deve ser revista. Não nos esqueçamos que, com o trabalho remoto, a dispersão é uma realidade, criando maior dificuldade na comunicação e consequentemente no engagement dos colaboradores. A criatividade deve substituir a rotina. Ser inovador na forma como nos relacionamos e como garantimos o engagement é o maior desafio atual dos RH.

Sem dúvida, as chefias diretas são também responsáveis por manter as suas equipas motivadas e ligadas com a empresa. Mas pergunto, não necessitam de apoio? Não deverão existir programas transversais? Sim, devem. E é aqui que o papel dos RH é relevante. Uma visão transversal do índice de bem-estar e a consequente implementação de ações coordenadas produzem resultados mais eficazes do que ações isoladas.

E como podemos aumentar a esta ligação com os colaboradores? Sabemos que, por exemplo, a criação de um espaço próprio de comunicação com os RH permitirá ao colaborador abordar temas que são relevantes para si, num espaço neutro. Mas isto pode não ser suficiente, principalmente quando entramos em aspetos da saúde mental dos colaboradores. Se acompanharmos estas ações com sessões aconselhamento psicológico, estamos a apoiar os colaboradores no seu desenvolvimento pessoal e no desenvolvimento de ferramentas que lhes possibilitarão lidar com situações de ansiedade e frustração no dia a dia, promovendo a estabilidade na sua saúde mental.

Não nos esqueçamos que o maior ativo que uma organização tem é o seu Capital Humano. São os colaboradores que alimentam o negócio e o ambiente empresarial, com a sua motivação, dedicação, criatividade e produtividade.

Nuno Finisterra

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